Com a chegada do verão amazônico e a consequente baixa no nível dos rios, trabalhadores que atuam no transporte fluvial enfrentam dificuldades crescentes para manter o abastecimento dos municípios do Vale do Juruá. A estiagem deste ano, considerada mais severa e precoce, já provoca atrasos, aumenta os custos e exige ainda mais esforço das embarcações que garantem a chegada de mercadorias às cidades isoladas.
Antônio Marcos Castro, que trabalha há 10 anos na navegação, explica que a viagem de Cruzeiro do Sul até Marechal Thaumaturgo, que em períodos de cheia leva cerca de dois dias, atualmente dura até oito dias. “Além do tempo maior, temos que descarregar o barco duas ou três vezes pelo caminho para conseguir chegar. No verão fica mais caro porque demora mais a viagem, é preciso contratar canoas menores e pagar mais gente para ajudar”, relatou.
A logística, que no inverno leva em média seis a sete dias no trajeto de ida e volta, passa a consumir cerca de 15 dias no período seco. “A tendência é piorar cada vez mais, porque o rio só vai secando. Mas é a profissão que escolhemos. É preciso ter fé e persistência até chegar o inverno novamente”, acrescenta Antônio.
A realidade é semelhante para Luiz Felipe Lima, de 20 anos, morador de Porto Walter. Ele conta que o trajeto até sua cidade, que deveria durar dois dias, tem levado até três. “O rio está seco, ruim de andar. Saímos na terça-feira e às vezes só chegamos na quinta. É um trabalho difícil, mas necessário, porque somos nós que abastecemos o município”, afirma.
As embarcações, com capacidade para até 25 toneladas, não podem ser totalmente carregadas nesta época devido às dificuldades de navegação. O custo do frete também sobe. Segundo Luiz Felipe, o valor que no inverno chega a 40 ou 45 centavos por quilo, no verão é calculado em centavos menores, mas multiplicado pelo tempo de viagem e pelas despesas extras.
Para os trabalhadores, a abertura de ramais poderia aliviar parte do problema. “Se Deus quiser, um dia melhora. Se liberarem estrada, no verão dá para levar de carro, e isso ajuda muito”, projeta Luiz Felipe. Enquanto isso, resta a persistência dos navegadores que, mesmo diante das adversidades, continuam garantindo o abastecimento das cidades do alto Juruá.
Fonte: Juruá Online
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