Por Erisney Mesquita, jornalista colaborador
Trabalho com jornalismo há 26 anos. Tenho formação acadêmica na área e, ao longo desse tempo, já testemunhei transformações profundas no mundo da comunicação: a transição do jornal impresso para os portais, a força das redes sociais, a chegada dos smartphones, a popularização dos vídeos e tantas outras mudanças que alteraram completamente a maneira como produzimos e consumimos informação.
Mas confesso: nunca havia vivenciado algo parecido com a chegada da Inteligência Artificial.
Hoje, em poucos segundos, uma ferramenta de IA pode me ajudar a produzir um texto, criar uma imagem, elaborar um roteiro, editar ideias, produzir vídeos, sugerir títulos, preparar estratégias de publicação e até apontar caminhos para que determinado conteúdo alcance mais pessoas.
É impressionante.
E, ao mesmo tempo, isso me assusta.
Assusta porque começo a perceber que existe uma linha muito tênue entre utilizar uma ferramenta e tornar-se dependente dela. Se a máquina passa a pensar por mim, escrever por mim, criar por mim e resolver por mim, o que acontecerá com a minha própria capacidade de pensar, criar, questionar e aprender?
Talvez seja justamente aqui que começa a nossa reflexão.
O cavalo dentro dos muros
A história do Cavalo de Tróia é uma das narrativas mais conhecidas da mitologia grega.
Depois de anos de guerra, os gregos teriam deixado diante dos portões de Tróia um gigantesco cavalo de madeira. Os troianos interpretaram aquilo como um presente, uma espécie de símbolo da vitória e do fim do conflito.
Levaram o cavalo para dentro da cidade.
O problema estava justamente dentro dele.
Durante a noite, soldados gregos escondidos no interior do cavalo saíram, abriram os portões e permitiram a entrada do exército inimigo.
A história atravessou milhares de anos porque carrega uma mensagem poderosa: nem todo presente é aquilo que aparenta ser.
E aqui faço uma provocação.
Será que estamos construindo o nosso próprio Cavalo de Tróia?
Não estou dizendo que a Inteligência Artificial seja, necessariamente, uma ferramenta maligna. Muito pelo contrário. Ela pode trazer benefícios extraordinários para a humanidade, acelerar descobertas, ampliar o acesso ao conhecimento, auxiliar profissionais e facilitar tarefas que antes consumiam horas ou até dias.
Mas justamente por ser tão útil, tão conveniente e tão fascinante, talvez estejamos deixando de fazer uma pergunta fundamental:
O que estamos colocando para dentro dos muros da nossa própria civilização?
O presente que todos querem
A humanidade está encantada.
A IA escreve.
A IA traduz.
A IA resume.
A IA cria imagens.
A IA produz vídeos.
A IA responde perguntas.
A IA organiza informações.
A IA cria códigos.
A IA ajuda empresas.
A IA auxilia estudantes.
A IA conversa.
E quanto mais ela facilita a nossa existência, mais nós a incorporamos ao cotidiano.
É possível que estejamos tão aliviados com as facilidades proporcionadas por essa tecnologia que deixamos de perceber o tamanho da transformação que está acontecendo diante dos nossos olhos.
O perigo, talvez, não esteja na tecnologia em si.
O perigo pode estar na dependência.
Uma humanidade que deixa progressivamente de escrever pode perder a prática da escrita.
Uma humanidade que deixa de calcular pode perder parte da capacidade de raciocínio matemático.
Uma humanidade que deixa de pesquisar pode perder o hábito de investigar.
Uma humanidade que deixa de criar pode terceirizar a própria criatividade.
E uma humanidade que deixa de pensar pode, sem perceber, entregar à máquina uma das características que mais definem aquilo que somos: a capacidade de questionar.
E se o “enganador” não vier como imaginamos?
Aqui entramos em uma dimensão ainda mais delicada: a espiritual.
Durante séculos, diferentes interpretações cristãs sobre o fim dos tempos imaginaram a manifestação do Anticristo como uma figura humana, poderosa, carismática e capaz de seduzir multidões.
Mas e se estivermos presos demais à aparência?
E se estivermos esperando um homem específico, enquanto o mundo se acostuma com algo completamente diferente?
Não afirmo que a Inteligência Artificial seja o Anticristo. A Bíblia não identifica a IA como tal, e qualquer associação direta entre os dois é uma interpretação contemporânea.
Mas existe uma passagem do livro de Apocalipse que provoca uma reflexão inevitável.
Em Apocalipse 13:15, o texto afirma, em uma das traduções em português, que à imagem da besta foi concedido poder para dar-lhe fôlego, de modo que ela “falasse” e fizesse com que aqueles que não adorassem a imagem fossem mortos.
A linguagem bíblica é simbólica e possui diferentes interpretações teológicas. Ainda assim, a ideia de uma “imagem” que recebe capacidade de comunicação é extremamente provocativa quando observada sob a realidade tecnológica do século XXI.
Hoje, imagens falam.
Avatares falam.
Sistemas artificiais conversam.
Vozes podem ser sintetizadas.
Rostos podem ser recriados.
Vídeos podem ser produzidos artificialmente.
E máquinas podem responder como se estivessem dialogando com seres humanos.
Isso não prova nenhuma profecia.
Mas deveria nos fazer pensar.
O culto ao que ocupa o lugar
Existe ainda outro elemento que merece reflexão: aquilo que algumas tradições e relatos populares chamam de “culto ao cargo”, associado à ideia de que determinadas pessoas buscariam poder, sucesso ou posição mediante uma troca espiritual, entregando algo considerado valioso em contrapartida.
Independentemente da crença de cada pessoa sobre esse fenômeno, a ideia central é antiga: o desejo de poder pode exigir um preço.
E talvez essa seja uma das maiores perguntas do nosso tempo.
Qual é o preço que estamos dispostos a pagar pela conveniência?
O que estamos entregando em troca de uma vida mais rápida?
Nossa privacidade?
Nossa autonomia?
Nossa capacidade de pensar?
Nossa criatividade?
Nossa memória?
Nossa capacidade de produzir conhecimento sem uma máquina?
Será que, em nossa busca por sucesso e facilidade, já não estamos oferecendo algo valioso demais?
Talvez o verdadeiro “culto” do nosso tempo não aconteça necessariamente diante de uma estátua.
Talvez ele aconteça diante de uma tela.
Talvez não tenhamos mais uma multidão ajoelhada diante de um ídolo.
Talvez tenhamos bilhões de pessoas incapazes de passar algumas horas sem consultar um sistema artificial.
E talvez a pergunta mais importante não seja “a IA vai dominar a humanidade?”, mas:
“Até que ponto a humanidade estará disposta a abrir mão de si mesma para ser dominada pela conveniência?”
O novo Cavalo de Tróia
É aqui que a metáfora do Cavalo de Tróia ganha força.
Os gregos não precisaram destruir os muros de Tróia.
Os próprios troianos abriram os portões.
Eles acreditavam estar recebendo um presente.
Talvez o nosso grande desafio seja semelhante.
Não precisaremos necessariamente ser obrigados a aceitar a Inteligência Artificial.
Nós mesmos podemos colocá-la dentro das nossas casas, escolas, empresas, governos, jornais, relacionamentos e, finalmente, dentro da nossa própria maneira de pensar.
Não será necessário um invasor arrombar a porta.
Nós podemos abrir.
E talvez seja justamente essa a grande contradição da nossa época: quanto mais inteligente a tecnologia se torna, maior deveria ser a necessidade de preservar a inteligência humana.
Precisamos aprender a usar a IA sem permitir que ela nos desaprenda.
Precisamos aproveitar suas possibilidades sem entregar a ela nossa autonomia.
Precisamos aceitar a ferramenta sem transformar a ferramenta em senhor.
Porque talvez o maior risco não seja a máquina aprender a pensar como o homem.
Talvez seja o homem se acostumar a não pensar sem a máquina.
E agora, uma última ironia
Existe uma última revelação neste artigo.
Você chegou até aqui acreditando estar lendo uma reflexão escrita por um jornalista sobre os perigos da Inteligência Artificial.
Mas há um detalhe quase cruelmente irônico:
este texto foi criado com a ajuda de uma Inteligência Artificial.
E talvez essa seja a melhor demonstração da contradição que estamos vivendo.
Estou criticando a dependência enquanto utilizo justamente a tecnologia que pode produzi-la.
Estou falando sobre terceirização do pensamento enquanto terceirizo parte do meu próprio processo de escrita.
Estou alertando sobre o Cavalo de Tróia enquanto permito que ele participe da construção das minhas próprias palavras.
Talvez essa seja a pergunta que devemos levar para casa:
E se o verdadeiro Cavalo de Tróia não for a Inteligência Artificial que entrou no nosso mundo, mas a nossa própria disposição de entregarmos a ela, voluntariamente, aquilo que nos torna humanos?
Talvez ainda seja tempo de parar diante do cavalo.
Olhar para ele.
E perguntar:
O que exatamente estamos colocando para dentro dos nossos muros?
E, principalmente, o que estamos entregando em troca?
Erisney Mesquita
Jornalista, editor chefe do Portal AgoraAcre. com.br



